Sim, Vidas Negras Importam. Para a Direita também.

 

É possível ser Direita e ser a favor da causa negra?

Respondo perguntando: é possível crer numa teoria econômico-filosófica e ser ao mesmo tempo humanista? E respondo: Sim, se VOCÊ tiver humanidade dentro de si. Independe de teorias ou conceitos. O amor ao próximo e a ética são fatores anexados à espiritualidade de cada qual.

O fato é que negar que existe PRECONCEITO, e que isso atinge a vida cotidiana de milhões no Brasil (contra gays, negros, nordestinos, mulheres, gordos, deficientes…) é realmente tapar o Sol com a peneira.

As teses da meritocracia e do livre mercado nada tem a ver com ser conivente com injustiças e agressões. O que se tem, na verdade, é um ‘racismo acanhado’, disfarçado de ‘posição filosófica’. Pois permitir a violência é o mesmo que participar dela. Nada fazer contra a injustiça e a reposição de danos, é o mesmo que praticá-los.

 

Uma confissão

Todavia, confesso que nem sempre foi esse o meu pensamento, em especial com relação ao assunto das “cotas raciais”. Sempre me pareceu uma ofensa ao princípio da meritocracia. Que, muito incompreendida pela esquerda, é a melhor maneira de trazer progresso no longo prazo a uma sociedade.

Porém a “questão” é COMO aplicar meritocracia sem ESMAGAR direitos. Infelizmente, a história demonstra que, em muitos momentos, tanto capitalismo quanto socialismo foram meros “adereços filosóficos justificativos” para as ações dos Estados nacionais.

Mas tudo é possível, desde que se busque o equilíbrio e a justiça, pois o apego cego a princípios, se produziu loucos, jamais libertou um escravo. E precisamos nos libertar, todos, das amarras do preconceito.

O racismo não “aumentou”. Apenas passou a ser DIVULGADO com a Internet. As humilhações e perseguições sofridas não só por negros, mas por mulheres, gays, nordestinos, deixaram de se tornar ocultas. São filmadas e compartilhadas. E as garras escancaradas do preconceito se tornaram EVIDENTES.

 

Não é “coisa de maricas”

Muitas vezes tenho visto o batido argumento de “no meu tempo de garoto todos fazíamos piadas de negros, gays, etc…”. Mas os garotos cresceram, e os ataques deixaram de ser apenas verbais. A “normalização” da violência ao próximo – seja ele negro, gay ou mulher – NADA tem a ver com a tese de LIBERDADE INDIVIDUAL e de COMUNICAÇÃO defendida pelas teorias de direita, ou de esquerda. Não cabe em lugar algum.

A honra e a dignidade não podem ser motivo de piada. A humilhação e o desmerecimento não podem se disfarçar de ‘opinião’. Ninguém tem esse direito. 

Claro que o termo “politicamente correto” é ofensivo à liberdade de opinião e de comunicação, e esta sempre será a posição da direita. Não se pode policiar pensamentos, mas respeitar o próximo, ter ÉTICA, é algo que foge às teses filosóficas, trata-se de DIREITO, de questão jurídica.

 

Sim, Vida Negras Importam

Não há como deixar de concluir que a luta contra o racismo e o direito da minorias é a própria luta pela democracia, pois TODOS cidadãos, independentemente de religião ou escolhas pessoais, tem DIREITO AO RESPEITO e À DIGNIDADE. E negar que exista RACISMO é por si apenas uma forma de RACISMO. Assim como negar o HOLOCAUSTO é uma forma de NAZISMO. É como ver pilhas de corpos ao lado de uma câmara de gás e afirmar que aquilo é “normal”. Não é.

É como ver NEGROS, GAYS e MULHERES sendo mortos, humilhados, perseguidos ou menosprezados por serem o que são, e pretender “normalizar” isso. 

Não basta “deixar de cometer o crime”. É preciso combatê-lo. É preciso repará-lo.

 

Sim o racismo e o preconceito em geral são estruturais

Afirmar que não há um racismo nas estruturas da sociedade é também um caminho para a perpetuação do preconceito. Ora, tivemos gênios negros, no presente e no passado. Gigantes como Machado de Assis e Cruz e Sousa. Mas as telenovelas apenas retratam o negro como um serviçal burro ou uma empregada inculta que mal sabe falar corretamente. 

Em outro exemplo, hoje temos o fenômeno do protestantismo, de origem europeia e branca, que demoniza as religiões de matriz africana. E demoniza também seus praticantes. Há agressões contra essas fés constantes, até por meio da televisão. E tudo é visto como “normal”. Não é.

O preconceito é o ódio materializado. Ele ataca gordos, gays, mulheres, deficientes, negros. Às vezes num olhar de desprezo, às vezes numa piada, às vezes na recusa de emprego. 

“JUSTIFICAÇÕES”:

“Se mulheres são o sexo frágil, não quero uma como líder em minha empresa”

“Se negros são burros, não irei empregar um”

“Se gordos são pessoas fracassadas, quero distância deles”

“Se gays são promíscuos, tenho ojeriza a eles”

 

É fundamental entender que o preconceito em geral, como o racismo, são sistemas que criam mitos para justificar a si mesmos. Aceitar tais mitos, assistir a difusão do preconceito, passivamente, equivale a referendá-los. Não é mais possível cruzar os braços. E nada disso tem a ver com mérito, com direita ou esquerda. Tem a ver com humanidade.

 

Cotas raciais: Mérito x Justiça

Este seria um tema que reclamaria uma análise profunda, mas não poderia deixar de comentar.

Repor uma perda NÃO FERE O MÉRITO e as teorias liberais. Por exemplo, Alemanha está pagando compensações monetárias ao Estado de Israel devido às atrocidades que o nazismo cometeu durante a segunda guerra mundial. Portanto, a “compensação histórica” nada mais é que um ATO INDENIZATÓRIO, JURÍDICO.

Ora, se teu carro fosse destruído por um funcionário público ou se você fosse preso injustamente, certamente demandaria COMPENSAÇÃO pela perda de sua propriedade e liberdade. O que dizer se tua família toda, teus antepassados, tivessem sofrido isso?

Então a Cota Racial nada tem a ver com a MERITOCRACIA, mas com uma reposição jurídica a um dano COLETIVO causado pelo ESTADO. Defender o contrário, ainda que disfarçado de meritocracia, é defender a injustiça. É defender que existem seres com menos direitos. É defender o próprio racismo.

 

VIDAS NEGRAS IMPORTAM

Portanto, sejamos de Direita, Esquerda ou Centro. Sejamos brancos, negros, homens, gays ou mulheres. Gordos ou magros. Nordestinos ou sulistas. TODOS TEMOS DIREITOS. Direito à liberdade, à dignidade, à propriedade. E SIM, que toda vez que o ESTADO viole tais direitos, que se façam as reparações. Não é “esmola” ou “favor”, é apenas JUSTIÇA.

Lutemos por ela.

 

 

 

IRAN PORÃ MOREIRA NECHO (15/11/1970), é católico apostólico romano, advogado formado na Universidade Mackenzie, com extensão em Samford-EUA, atuou como advogado interventor em Liquidações Extrajudiciais pelo Banco Central. É sócio no escritório de advocacia Moreira Necho e Santos Couto Advogados, presidente do IBRIM – Instituto Brasileiro Imobiliário e criador do site direitalivre.com, em 2014.

 


 

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