Racismo negro também existe, e tão cruel quanto o branco. All lives matter.

 

Brancos sofrem racismo?

Racismo. Esse não é um assunto leve para mim. E talvez alguns venham a se perguntar porque um branco caucasiano como eu poderia ter sofrido algo nesse tema.

Mas o fato é que o racismo existe sim no Brasil, às vezes disfarçado em forma de piada entre brancos. Mas muitas vezes de maneira agressiva e aberta quando vindo de negros.

E sofri os dois lados do mesmo fenômeno.

 

Infância sofrida, lugar comum no boxe

Muitos me vêem como advogado hoje, mas mal imaginam a infância terrível que tive. Sem pai, com um padrasto chinês que tentou me matar com um facão aos 6 anos de idade. Não conseguiu, mas acabou matando minha infância, me espancando por toda ela.

Para mim, então, as artes marciais surgiram como uma extensão natural da vida. Apanhar para viver. Comecei aos 6 no judô, depois kung-fu e finalmente boxe aos 15 anos.

Em que pese um nerd, o boxe para mim era minha esperança de uma vida melhor. Estudava computação numa bolsa de estudos que ganhei por sorte, mas acreditava mais no boxe. Treinava quase 8 horas por dia, na esperança de chegar a um mundial.

 

“Arrebenta esse branco”

Minha primeira academia de boxe foi no bairro da penha, em São Paulo. Na terceira aula fui colocado com um profissional que me arrebentou por três rounds seguidos. Ninguém me ensinou nada. Apenas me colocaram ali para apanhar. Carnificina.

Enquanto meu rosto se desfazia no corner do ringue, os demais gargalhavam e gritavam “arrebenta esse branco!”, “mata ele!”, “quero ver sangue!”. Não tinha mais forças, e me segurei nas cordas para não cair. Mas os murros não pararam mesmo após soar o gongo. Meu algoz, um negro alto peso pesado (o único branco ali era eu…), já passados dos 40 anos, era um veterano, e sorria o tempo todo.

Eu era apenas um garoto. Me olhei no espelho, o rosto completamente desfigurado, o nariz quebrado. Completamente entortado e afundado. Toda a região do nariz estava fraturada e parecia areia. Peguei meu nariz com força em frente ao espelho, e tentei colacá-lo no lugar, enquanto ouvia os ossos da minha face estalando. Até hoje é torto, umas das narinas ficou menor.

Ainda assim, fiz questão de voltar na mesma semana. Ninguém esperava que retornasse. Olhei a todos nos olhos, e me retribuiram um olhar que foi um misto de espanto e vergonha. Tiveram de me engolir. Tempos depois, fui ao São Paulo F.C., treinar com o grande mestre Carollo, até que uma fratura, desta vez no cotovelo, me tirou o sonho de ser campeão.

 

 

“Brancos não servem para o boxe”

Me recordo de ter ouvido isso de um professor de educação física, que do “alto do seu saber” me ‘ensinou’ que brancos eram ‘inferiores’ pois os negros caçavam na África, e por isso eram melhores em esportes de explosão… Imagino quantos brancos deixaram de treinar boxe por racistas imbecis como ele.

E toda a escola multicampeã de boxe mexicano? E tantos outros campeões brancos, como até recentemente foram os russos? Num ringue se vence com a alma, não com a pele. Assim como na vida.

Sempre haverá uma desculpa, para quem perde. Ou para quem não tem forças para lutar até vencer, sem desistir jamais.

 

Ódio gera ódio, que gera…

Tenho observado, tristemente, que manifestações de ódio contra brancos não somente persistem, como são “justificadas” como “naturais” devido à história recente. E a “minha” história”? Devo odiar negros? Deveria perseguí-los e humilhá-los também?

No meu caso, me relacionei com várias moças negras ao longa da vida, me casei com uma (que se diz ‘branca’ por ter a pele mais clara, mas que possui todos traços negros que, particularmente, acho lindos). Tenho lindos filhos mestiços que amo e que, embora sejam ‘brancos’ para os padrões brasileiros, assim não seriam considerados na Europa. 

Meus melhores professores, no colégio e na faculdade foram negros, como foi o caso de Edvaldo Brito, um gigante do Direito. E tiveram meu respeito por seu conhecimento e postura, não por suas peles.

O ódio sempre se perpetuou pois as pessoas que o recebem o transformam em sementes no coração, e as regam com mais atos de ódio. 

 

Mas e a história?

Hoje, o que me preocupa é o ‘racismo justificado’. Há até sentenças de juízes que entendem que negros podem praticar racismo à vontade, pois não haveria “racismo negro”. Segundo eles, isso seria uma “exclusividade branca”. O único detalhe que se esquecem é que o racismo negro JUSTIFICA o racismo de alguns brancos. Acaba por perpetuar o ódio, ao vitimizar brancos.

Alguns líderes do movimento negro justificam toda e qualquer violência contra brancos com base no sofrimento dos escravos no século 19, muito embora estejamos no século 21. Muito embora a escravidão não tenha recaído exclusivamente sobre negros ao longo da história. Basta ver o que fizeram os japoneses com as mulheres coreanas durante a segunda guerra mundial. No século 20. E sim, há um ódio mútuo entre japoneses e coreanos hoje em dia.

O que nos dá a noção exata da perpetuação do ódio.

E não estou aqui minimizando o sofrimento dos negros ou dos coreanos do passado. É um fato. Mas isso não pode ser desculpa para atos de violência contra quem quer que seja, hoje.

 

Não há racismo “do bem”

Acredito que o combate ao racismo deveria ser TOTAL. Entre japoneses e coreanos. Negros e brancos também. Não é possível exigir que o outro deixe de ser racista, quando você mesmo dá o mau exemplo. É como alguém que exige a paz enquanto esfaqueia outros pelas costas.

O racismo, como visto no policial norte-americano recentemente, é abjeto e deve ser exemplarmente punido. Assim como TODO e QUALQUER tipo de racismo deveria ser. Venha de japoneses, coreanos, brancos ou negros. O ódio e o preconceito não são uma exclusividade de uma raça. Basta ver o que ocorreu no GENOCÍDIO DE RUANDA de 1994, em que quase UM MILHÃO de negros foram mortos por outros negros.

Portanto, não iremos combater o racismo com mais racismo. Assim como o mal jamais exterminará outro mal. Apenas o substituirá.

O mundo não precisa de mais ‘males substitutos’, nem de ‘preconceitos menores’. Precisamos de consciência e exemplo.

A paz jamais nascerá do ódio.

 

 

 

IRAN PORÃ MOREIRA NECHO (15/11/1970), é católico apostólico romano, advogado formado na Universidade Mackenzie, com extensão em Samford-EUA, atuou como advogado interventor em Liquidações Extrajudiciais pelo Banco Central. É sócio no escritório de advocacia Moreira Necho e Santos Couto Advogados, presidente do IBRIM – Instituto Brasileiro Imobiliário e criador do site direitalivre.com, em 2014.

 


 

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